A eternidade inteira para sofrer

 




A eternidade inteira para sofrer

Tiago da Costa

         

O carro de aplicativo parou na porta do prédio pouco depois das oito horas da noite. O passageiro, reflexivo, entrou após cumprimentar o motorista. Disfarçando bem o nervosismo, mantinha os olhos na tela do celular e o pensamento em algum lugar distante. Era atemorizante pensar que aquela noite poderia ser a sua última.

      — Boa noite, senhor Franck. — O motorista, pálido e de cabeça raspada, conferiu o destino da corrida no painel. — Cemitério Père-Lachaise. Correto?

      — Isso mesmo. Um tanto incomum para o horário, admito — respondeu tentando demonstrar naturalidade.

          Natural, definitivamente, não é algo que se podia dizer sobre aquele momento. Ninguém planeja contrair uma dívida impagável aos trinta anos ou fazer inimigos que desejam sua morte. Franck tinha as duas coisas. Não era natural saber que ao nascer do sol seria um homem rico ou um homem morto. Ainda assim, ele seguia para o encontro marcado.

          As linhas que guiaram Franck até àquela noite começaram a ser traçadas dois anos antes, quando o analista de sistemas concluiu o desenvolvimento de um aplicativo que aumentaria a chance dos usuários em apostas esportivas online. O sucesso do programa, amplamente aceito e difundido pela comunidade de apostadores, permitiu que em seis meses o jovem francês trocasse sua condição de programador autônomo para proprietário de uma agência que empregava quase cem profissionais de tecnologia.

      A ascensão de Franck foi rápida como a sua derrocada. Estudioso sobre o comportamento dos usuários de seu produto, percebeu que lidava com uma população viciada, propensa a fazer sacrifícios financeiros irresponsáveis para manter uma aposta. Perdedores desesperados formaram um carrossel da miséria que fez de Franck um multimilionário.

          A conta do enriquecimento próprio com a desgraça alheia chegou para Franck depois que ele concretizou a fusão de sua empresa com um grupo estrangeiro, expandindo seus negócios para mercados que não conhecia direito. Realizou altas transferências para cobrir apostas de grandes acertadores, o que contrariava os propósitos da sua empresa como ele a havia concebido.

          Não fossem preocupantes o suficiente os valores que estava pagando, Franck descobriu tardiamente que o ramo principal de atuação do grupo com o qual se associara não eram exatamente os investimentos financeiros, mas a lavagem de dinheiro. O jovem milionário se viu, entre uma jogada e outra, envolvido com o crime organizado, e passou a ser ameaçado diretamente por um dos seus chefes, Alexei Gorov, um mafioso russo que deixava claro que aquela gente nunca perdia uma aposta.

          — Chegamos, senhor. — O motorista destravou as portas, lançando um olhar de soslaio. Parou em frente ao portão principal, que estava entreaberto. — Tenha uma boa noite e uma boa sorte.

          A entrada do cemitério tinha uma iluminação fraca, clara o suficiente para o visitante enxergar os caminhos e os mausoléus, mas sombria a ponto de não o deixar confortável por onde pisava. O som frio do vento levantando as folhas caídas ao chão reforçava o recado: você ainda não deveria estar aqui!

          Franck já havia estudado o mapa do Père-Lachaise. O mais famoso cemitério francês, conhecido por guardar a última morada de celebridades como Jim Morrison, Édith Piaf e, segundo alguns estudiosos, o Conde Vlad, era perturbadoramente silencioso durante a noite, de forma que apenas o barulho dos próprios passos acompanhava o visitante. Naquela noite, entretanto, não era nenhuma dessas personalidades que seria visitada.

          Movido por um desafio lançado em um perfil anônimo no Tiktok, Franck saiu de casa disposto a resolver seus problemas financeiros.  Tudo por um preço que ele aceitava pagar: passar a noite no mausoléu da condessa russa Elisabeth Demidoff. Se conseguisse deixar o local ao amanhecer, colocaria a mão em alguns milhões de euros, tudo garantido no testamento da condessa.

          Foi no final de uma rua assentada com pedras cinzas que Franck avistou seu destino. Uma escadaria se estendia entre paredes até uma das construções mais impressionantes do cemitério. Guardado sob pilares de uma estrutura arquitetônica que reproduzia um templo grego, o mausoléu se apresentava soberano. Franck não podia deixar de reconhecer a exuberância da construção, nem ignorar o cheiro de medo que se misturava com o ar.

          A sensação de estar sendo observado era incômoda. As árvores, os degraus, o vento, tudo parecia estar vigiando cada passo de Franck escada acima. No final do caminho encontrou uma porta de ferro, preta com marcas de ferrugem. Parecia pesada, mas abriu ao leve toque do explorador. Não havia mais como retroceder.

    Depois de dar o primeiro passo cripta adentro, Franck percebeu que a temperatura havia mudado. O ar era mais quente naquele ambiente e suas narinas eram invadidas por um cheiro de damas-da-noite, embora não percebesse flores em nenhum lugar. Sentiu vontade de ir embora, mas lembrou-se das ameaças de Alexei Gorov. Prosseguiu imaginando que não havia como as coisas piorarem.

       Estranhamente o interior do imóvel era muito maior do que se podia supor antes de adentrá-lo. O chão era um mosaico de pedras retangulares acinzentadas minuciosamente encaixadas, e o teto parecia feito de um mármore amarelo claro, quase branco. Não havia janelas, apenas fissuras no alto das paredes, por onde entrava a luminosidade do luar. No centro do ambiente, sobre uma mesa de pedra, destacava-se um caixão fechado cor de marfim.

        Franck deu passos desconfiados e levou um susto quando a porta fechou atrás de si. Foi possível ouvir o barulho do ferrolho trancando do lado de fora. Caminhou até o caixão e só então percebeu que havia várias velas, longas e apagadas, espalhadas pela sala.

        — Boa noite, senhor Franck! — A saudação em voz feminina parecia sair de todos os cantos do recinto. — Eu aguardava por você.

          Por uma larga fissura na parede, ainda não percebida pelo visitante, saiu uma mulher pálida de cabelos negros, curtos e cacheados. Trajando um vestido preto comprido com um decote que valorizava a beleza dos seios, encarou Franck com seus olhos de mistério e sede.

       — Elisabeth Demidoff. — Apresentou-se estendendo a mão para que Franck pudesse beijá-la. — É um prazer recebê-lo!

         O homem segurou receoso a mão da condessa e levou-a até os lábios. Em um movimento rápido demais para que pudesse compreender, cortou o canto da boca com suas unhas. Enquanto ele pressionava o ferimento para diminuir a dor, ela levava à boca os dedos sujos de sangue, demonstrando satisfação.

          — Doeu, senhor Franck? O senhor é uma pessoa distraída.

          — Não. Digo, tudo bem. — O jovem começava a perceber que não tomara uma boa decisão saindo de casa naquela noite. — Eu vim porque soube de um desafio.

      — Por que você precisa de tanto dinheiro? — Demidoff andava pela sala, analisando a vítima com atenção.

         — Trabalho em um mercado muito instável e estou com baixo capital de giro — explicou com se apresentasse um produto para um cliente. — A recompensa vai ajudar muito em uma expansão que pretendo fazer.

          A condessa parou, olhou para o teto, e todas as velas do local se acenderam. Eram centenas.

          — Mais uma chance. Dessa vez pense melhor. O que te trouxe aqui?

          — Sei que é complicado entender... — Iniciou tentando demonstrar segurança. — O negócio tem características próprias...

          Enquanto Franck desenvolvia seu raciocínio as velas se apagaram, todas de uma vez. A luz do luar diminuiu, deixando a sala na quase completa escuridão. Sem enxergar nada, o homem sentiu cinco tapas no rosto, fortes a ponto de lhe queimar a cara. O gosto de sangue veio à boca.

          A chama das velas renasceu. A condessa estava no lado oposto do recinto, o olhar frio fixado no alvo.

          — Eu não nasci ontem, senhor Franck. Diria que estou próxima de completar um quarto de milênio, o que no meu caso traz vantagens importantes. Eu tenho certa facilidade para perceber as mentiras e as omissões dos que tratam comigo. Além do mais, tenho tempo para acompanhar de perto a vida de cada um.

         — A senhora está dizendo que me espionou? — indagou tentando impor algum respeito no tom de voz. — Como pode saber...

       — Eu pergunto aqui, meu caro. Essas são as regras. Você tem uma nova chance, responda o que te perguntei com mais atenção.

          Franck começou a questionar os métodos da condessa ao invés de formular uma resposta honesta, e dessa vez a surra foi pior. O mausoléu escureceu novamente e o homem sentiu sua carne rasgar. Um vulto corria rapidamente por toda a sala, desferindo golpes que ele não sabia precisar de onde vinham. Sentiu quando o osso da perna se partiu, o sangue escorrendo por todo o corpo. Depois do que pareceu uma eternidade, a luminosidade voltou.

          Elisabeth o encarava do canto da sala. Tinha os olhos vermelhos e as unhas compridas sujas de sangue. Os caninos protuberantes retornavam ao tamanho normal, deixando a vítima confusa se delirava devido ao espancamento ou se estava diante da sombra da morte. O semblante da condessa era calmo e não combinava com o grau crescente das ameaças que fazia.

          — Na próxima vou matá-lo, senhor Franck. Agora prossiga.

          Sem forças para se levantar, o homem chorava e perseverava entre soluços.

          — Eu criei um aplicativo de apostas e percebi um padrão entre os usuários. Inseri códigos no programa que exploravam a vulnerabilidade dos apostadores e aumentava a probabilidade de torná-los viciados. — Franck se engasgava entre soluços, cuspia sangue e limpava as lágrimas. — Mas cometi um erro de cálculo e alguns apostadores conseguiram ganhar muito dinheiro em poucos jogos. Para cobrir o que devia a eles aceitei novos sócios no negócio, mas agora devo muito dinheiro a pessoas perigosas. Por favor, acredite em mim.

        — Eu acredito, querido. — Elizabeth sorriu pela primeira vez. — Venha, levante-se. Você receberá sua recompensa.

          Confuso com a força da condessa, bem como com as possibilidades do que ela acabara de dizer, Franck tentou parecer racional.

          — A senhora vai permitir que eu saia daqui vivo e... rico?

 — Você receberá mais do que será capaz de gastar, mas ainda precisa demonstrar um último gesto de confiança.

 — O que for preciso.

 A condessa encarou Franck. Os olhos brilhavam em vermelho e as presas brancas cresceram. A personificação da morte diante dele.

 — Ofereça seu pescoço. Viva pela eternidade para me servir e me poupe de desperdiçar sua vida.

O homem pensou em negociar. Chorou e andou pela sala, mas sabia que todo esforço seria inútil. Aproximou-se da condessa, fechou os olhos e levantou a cabeça.

— Eu aceito o meu fim.

 A última sensação do vampiro que nascia foi uma dor perfurante no pescoço e tudo se apagou. Quando acordou novamente, ainda era noite.

 — Boa noite, meu filho! — Elisabeth Demidoff estava sentada em uma cadeira no centro da mesma sala. Franck levantava-se do chão no mesmo ponto em que caíra na noite anterior. — Você dormiu por vinte e quatro horas.

— O que aconteceu?

— Agora você é uma criatura da noite. Nunca mais verá o sol, e terá uma vida inteira para entender seu lugar neste mundo.

Nesse momento a porta externa abriu-se atrás de ambos.

— Um dos meus criados o levará até a sua casa. No caminho vai explicar conceitos importantes que você precisa compreender. O primeiro deles é que eu sei de tudo e sempre consigo aquilo que persigo.

Franck, ao perceber quem adentrou o recinto, precisou se segurar para não cair novamente. Era Alexei Gorov que estava diante deles. As coisas começavam a fazer sentido.

— Boa noite, Condessa! — cumprimentou o servo, curvando-se em reverência. — Vejo que tudo saiu como a senhora havia planejado. Venha, Franck, temos uma empresa para administrar e muita gente dependendo de nós lá fora.


Publicado originalmente em:
        Antologia "O testamento da Vampira de Paris" (Cartola Editora, 2026).

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